quarta-feira, 8 de agosto de 2012

IV Trail Noturno da Lagoa de Óbidos




Hesitei bastante antes de me resolver a participar nos 50 km do Ultra Trail Noturno Lagoa de Óbidos (UTNLO). Por um lado, as excelentes recordações que esta mesma prova, na sua versão de 2010, ainda na sua 2ª edição e com “apenas” 42 km, me tinha legado, acicatavam-me o desejo de voltar a correr o percurso magnífico, traçado pelas mãos conhecedoras dos associados do Clube de Atletismo de Óbidos.

Por outro lado, sentia alguma apreensão face à perspectiva de correr uma prova nocturna de 50 km, três semanas apenas após ter concluído os 168 km do Ehunmilak, e com um cansaço acumulado de vários meses de preparação para esse enorme desafio, que incluiram a participação em diversas Ultras. Para além disso, desde o Ehunmilak reduzira muito o volume de treino, o que, conjugado com o cansaço, levou a uma necessária redução da forma física.

No entanto, como me parecia uma excelente maneira de acabar a época desportiva, e como tenho uma enorme dificuldade em passar um mês inteiro sem participar em qualquer prova, lá me decidi pela positiva. Mal sabia eu das agruras que me aguardavam.


Percurso


Assim, no sábado dia 4 de Agosto, já depois das 18 horas, juntei-me à extensa excursão laranja do meu Clube Desportivo, os sempre animados Run 4 Fun. Chegámos a Óbidos, levantámos os dorsais no Pavilhão e dirigimo-nos para o largo do “Jogo da Bola”, onde teria início a corrida.



Run 4 Fun

Com Jorge Serrazina no largo do "Jogo da Bola"




Pela quantidade crescente de participantes, é nítido que as corridas na natureza estão em franca expansão. Entre as duas provas que iriam decorrer, o UTNLO de 50 km e o TNLO de 27 km, estariam incritos cerca de 400 atletas, mercê da singularidade desta estival prova nocturna e também da popularidade de vários membros do CAOB.

É sempre um momento agradável, o reencontro com a malta conhecida e amiga, antes do início das corridas, durante o seu decorrer e após o seu término. Para me sentir bem necessito de participar regularmente nestas competições, pelo ambiente, pelo convívio, pela amizade e pela adrenalina.

Às 21 horas os atletas tiveram ordem de saída para uma marcha lenta pela principal artéria da Vila, e perante os rostos admirados de quem tinha vindo expressamente para assistir ao festival medieval que decorria por estas semanas na Vila. Lá fomos, em fila estreita pela rua apertada, ante as ovações e os gritos de incitamento dos populares presentes, os quais devem ter ficado muito supreendidos por depararem com um troupe de atletas nocturnos, munidos de frontais luminosos, lenços na cabeça, mochilas de hidratação, meias de compressão e toda a extensa parafrenália associada a esta singular actividade, quando tudo quanto esperavam era um ambiente medieval, com mascarados a condizer.


Partida - Foto de Eduardo Santos

Após a marcha inicial, reunimo-nos à saída da vila, onde se deu a partida real, cerca das 21h15. Como é seu cariz habitual, os atletas partiram animados, lançando comentários divertidos, como o do fulano que dizia: “em lugar de estar em frente à televisão, com uma cerveja geladinha na mão, a ver os outros correrem, estou eu aqui; não tenho juizo nenhum!”

A partida foi algo confusa, com os atletas em magote, a tentarem não se atropelar nem serem atropelados, nas vias estreitas e empoeiradas que nos levaram para longe do castelo e em direcção à Lagoa. Como as duas corridas tiveram partida simultânea, os cerca de 18 km iniciais foram feitos sempre na companhia de muita gente, até ao ponto de bifurcação. Mas lá chegaremos. Nestes primeiros quilómetros fui levado a manter um ritmo (cerca de 5’30’’/km) superior ao que tinha em mente como razoável (cerca de 6’/km) devido ao natural vigor dos participantes na prova mais curta.

O percurso ora passava por bosques densamente arborizadas, onde tinhamos que saltitar para a esquerda e para a direita para nos desviarmos das árvores, ora mudava para estradões. Acompanhei o Francisco Mira Gaio durante algum tempo, e aproveitámos para ir um pouco na conversa. Neste fase da corrida ele ainda seguia num ritmo conservador, o que me permitiu acompanhá-lo. Um pouco mais tarde, quando eu já tinha gasto o combustível, ele passou por mim que nem uma seta, e ainda me gritou, “anda Luís!”, mas eu é que já só consegui reponder: “força Francisco!”

Por mim passou também o Nuno Dias de Almeida e pouco depois o Orlando Ferreira, ambos em grande forma. A seguir foi a vez do companheiro Arlindo Deus me alcançar e aproveitei a sua boleia, uma vez que vinha a um ritmo semelhante ao meu. Recordo-me de o Arlindo me dizer - só tenho receio de nos perdermos - e eu responder - Arlindo, estamos perdidos! Voltámos atrás, retomámos o caminho e um pouco mais adiante, corríamos afanosamente, quando nos deparámos com um grande grupo de pirilampos gigantes que se encaminhava rapidamente na nossa direcção. “Diabo! Hoje nem sequer bebi”, pensei eu... Afinal era um grande grupo de atletas que se tinha perdido e regressava pelo mesmo caminho a fim de reencontrar as fitas. É o costume nestes eventos: como é muito cansativo mantermo-nos constantemente alerta, a certa altura baixamos a concentração, confiamos em que os atletas que vão à frente sabem o caminho e damos connosco perdidos!

O desvio correcto levou-nos para dentro de uns canaviais e para uns troços onde era necessário molhar os pézinhos na lama e no lodo. Em breve as sapatilhas pareciam umas botifarras carregadas de barro e limos. Por vezes enterrávamo-nos  até aos tornozelos. Enfim, uma animação para quem gosta de desafios variados! Fez-me recordar a alegria que tinha quando era miúdo ao enterrar os sapatinhos em todas as poças a caminho da escola. Se quisesse monotonia tinha mas é ido fazer uma prova de estrada, que diabo!

A certa altura fui ultrapassado pelo Jorge Mimoso, o qual me reconheceu e ainda estivémos algum tempo na conversa até ele arrancar novamente. Dizia-me ele que se deveria reformar do trail, logo a seguir à sua 2ª participação nos 330 km do Tor des Geants, no final de Agosto, e pensava eu, “chiça, como os quilómetros que o Mimoso já tem nas pernas, deve dar direito a reforma por inteiro com bonificação acrescida e menção especial!”

Ao fim de 25 km, sempre na companhia reconfortante do Arlindo, lá chegámos ao abastecimento da praia, com cerca de 2h35 de prova feitos. Aproveitei para encher a barriga com marmelada, fruta, bolachas e lá partimos para a parte mais dura da prova, mas também uma das mais interessantes: as dunas de areia.

Lá fomos gerindo estes cerca de 6 km, o melhor que podíamos. Se as subidas nas dunas custavam, as descidas nas arribas também não eram fáceis, pois a luz do frontal não me chegava para distínguir bem onde colocar o pé sem correr o risco de o torcer ou evitar por vezes, fruto da distância mal calculada, um ou outro impacto mais duro no solo. Essa foi, aliás, uma dificuldade constante até ao fim e acabei a prova com as plantas dos pés muito massacradas.

Após 3h40 de prova, lá chegámos ao abastecimento dos 32 km. Ou seja, estes últimos 7 km tinham demorado uma hora a percorrer! Depois deste ponto, vi-me forçado a baixar ainda mais o ritmo e o perdi o Arlindo de vista. A partir daqui corri sempre isolado e fui sendo sucessivamente ultrapassado por diversos atletas.

A páginas tantas passou por mim o Carlos Henriques, fresco como uma alface e cheio de força. Ficámos mais um pouco na conversa e depois também ele arrancou em direcção a Óbidos. Por esta altura esta Ultra de 50 km já me parecia mais uma reunião social, do tipo speed dating. Conversa aqui, conversa ali, sempre a rock ‘n rollar. Eu é que já mal me aguentava nas canetas e os pés, então, estavam destroçados por todas aquelas descidas cheias de regos da chuva, endurecidos pelo sol estival.

Aproveito para agradecer aos vários amigos que tiveram a amabilidade de abrandar para trocar dois dedos de conversa comigo. Sem o seu apoio teria sido muito mais difícil para mim concluir a prova.

Quando o meu Garmin marcou os 42 km, com 5h15 de prova percorridas, lembrei-me que em 2010 tinha demorado praticamente menos uma hora para fazer a mesma distância. Mas já só faltavam 8 km para a tortura acabar. Pouco depois, num estradão, deparei-me com a placa dos 20 km da corrida mais curta. Ou seja, já só faltavam 6,5 km para a meta. As subidas fazia-as todas a caminhar, nas rectas e descidas aproveitava para correr.

Por fim avistei as muralhas do castelo. O ânimo ao sentir a meta já tão perto permitiu-me acelerar o andamento, de caracol para tartaruga. A 2 km do fim, resolvi finalmente que era hora de colocar um pouco de ritmo no meu andamento e a partir daí consegui fazer o percurso final todo a correr até ultrapassar a porta da muralha e chegar finalmente à meta, 6h22 depois do tiro de partida.


Meta - Foto de Eduardo Santos


Esta não foi, garantidamente, a prova de trail mais dura em que já participei, mas, apesar do seu pequeno desnível, tem algumas (boas) surpresas para quem se atreva a alinhar na linha de partida. A minha conclusão é que não importa se são 10 km, 50 km ou 170 km. Tudo depende do tipo de terreno que se pisa e sobretudo da preparação com que se chega a uma prova.

Seja como for, custou-me bastante a fazer, sobretudo a partir do início da segunda metade. A dificuldade com que progredi no terreno levou a que não conseguisse apreciar a prova como ela mereceria. Poderia ter feito a prova mais curta, mas nessa eventualidade não teria percorrido aqueles que considero os troços mais interessantes do percurso. De futuro tentarei chegar mais bem preparado às provas em que participar. Foi mais uma lição que aprendi.

Por fim, uma palavra de apreço para a organização do CAOB, que julgo ter estado impecável. A parceria com o Mundo da Corrida também resultou feliz.

É uma prova diferente, que vale a pena fazer e tem boas surpresas para os neófitos do trail.


3 comentários:

  1. Belo relato Luís, como sempre.Obrigado

    Boa recuperação para os novos desafios

    Runabraços

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  2. Recupera bem Luís para retomarmos os nossos treinos!

    Abraço

    Zé Carlos

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  3. Parabéns, parece que escapaste ás quedas, nem todos se podem gabar de ter escapado, de resto compreendo a questão dos pés pois eu saí de lá também aflito, não tinha feridas nem bolhas eram apenas dores, agravado com as 8 h. que por lá andei. Não creio que estivesses mal preparado, cansado sim e por isso sentiste algumas dificuldades. Por isso mete aí um travão, pelo menos por algum tempo. Abraço

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